bailam corujas e pirilampos. se encasulam os madruvás com as panças cheias de manacá para dali a um mês romperem com suas super novas asas de seda e darem seu primeiro vôo tímido. a casa erguida com o esforço da mãe viúva encurvada durante horas na máquina de costura. durante anos. a maternidade das borboletas, logo ali do lado dos muitos vasos suspensos de orquídeas bailarinas com seus tules amarelos, rosas e pintadinhos.
seu vôo solo, precoce (talvez quando ela ainda fosse um mandruvá), a lapidação de um diamante bruto, nas palavras de uma paixão. au voir, janela ao lado da cama. imensa. quando a noite de chuva cessava, ela as abria em busca de corujas fazendo bruxaria com os pescoços em cima dos telhados.
a poesia, o trato, a vontade que ela sempre teve – sempre teve de fazer as histórias parecerem fantásticas, se não aos outros (o seu pai sempre se encantou com elas, ele serve?).. se não aos outros, a si mesma! quem pode tirar do coração os campos de alecrins dourados que nasciam sem ser semeados? e que só existiam porque na sua cabeça, os versos da mãe faziam nascer em qualquer graminha alecrins dourados.
quando buscou novas terras, vida de adulto, foi fazendo dessa cabeça falha de memória mas infinda de imaginação infantil um tesouro raro e precioso.. um pouco esquecido. o traquejo lento e decisivo dos anos tende a um fechar de cortinas, ela está prestes a terminar um começo nas terras distantes. sobe lenta as escadarias vermelhas, dez degraus (aprendeu a contar para evitar tropeços quando sorvia seus licores), está sóbria.. vê os dinossauros, verdes e lagartinosos correrem ligeiros pelo muro. vê o pé de manacá, há anos sendo a força motriz da metamorfose mais bela daquelas bandas. a transformação maior é dentro do peito – ali não é seu front de batalha, é seu deleite, seu escorregar macio e liberto para dentro da sua imaginação fértil.
é ali que ela gosta da chuva, os sonetos das calhas a guiarem suas mãos papel afora, onde as massas no forno são o aroma aconchegante das roupas no varal. onde cada ranger de portão é a anunciação de uma tarde de sol com as crianças no quintal.. fazendo dos pequenos baldinhos de água, oceanos. é ali onde ela volta, olha com sabedoria o correr lento dos anos.
e pede que não a deixem sob um destino displicente.
que as decisões sejam tomadas sob a náusea docíssima do afeto, da crença e dos lampejos alquimistas que a fazem se sentir em casa. não irei abrir as janelas, pois as madeiras incharam com a chuva, mas espero que até vocês, corujas, estejam trabalhando no meu pedido.


