bailam corujas e pirilampos. se encasulam os madruvás com as panças cheias de manacá para dali a um mês romperem com suas super novas asas de seda e darem seu primeiro vôo tímido. a casa erguida com o esforço da mãe viúva encurvada durante horas na máquina de costura. durante anos. a maternidade das borboletas, logo ali do lado dos muitos vasos suspensos de orquídeas bailarinas com seus tules amarelos, rosas e pintadinhos.

seu vôo solo, precoce (talvez quando ela ainda fosse um mandruvá), a lapidação de um diamante bruto, nas palavras de uma paixão. au voir, janela ao lado da cama. imensa. quando a noite de chuva cessava, ela as abria em busca de corujas fazendo bruxaria com os pescoços em cima dos telhados.

a poesia, o trato, a vontade que ela sempre teve – sempre teve de fazer as histórias parecerem fantásticas, se não aos outros (o seu pai sempre se encantou com elas, ele serve?).. se não aos outros, a si mesma! quem pode tirar do coração os campos de alecrins dourados que nasciam sem ser semeados? e que só existiam porque na sua cabeça, os versos da mãe faziam nascer em qualquer graminha alecrins dourados.

quando buscou novas terras, vida de adulto, foi fazendo dessa cabeça falha de memória mas infinda de imaginação infantil um tesouro raro e precioso.. um pouco esquecido. o traquejo lento e decisivo dos anos tende a um fechar de cortinas, ela está prestes a terminar um começo nas terras distantes. sobe lenta as escadarias vermelhas, dez degraus (aprendeu a contar para evitar tropeços quando sorvia seus licores), está sóbria.. vê os dinossauros, verdes e lagartinosos correrem ligeiros pelo muro. vê o pé de manacá, há anos sendo a força motriz da metamorfose mais bela daquelas bandas. a transformação maior é dentro do peito – ali não é seu front de batalha, é seu deleite, seu escorregar macio e liberto para dentro da sua imaginação fértil.

é ali que ela gosta da chuva, os sonetos das calhas a guiarem suas mãos papel afora, onde as massas no forno são o aroma aconchegante das roupas no varal. onde cada ranger de portão é a anunciação de uma tarde de sol com as crianças no quintal.. fazendo dos pequenos baldinhos de água, oceanos. é ali onde ela volta, olha com sabedoria o correr lento dos anos.

e pede que não a deixem sob um destino displicente.

que as decisões sejam tomadas sob a náusea docíssima do afeto, da crença e dos lampejos alquimistas que a fazem se sentir em casa. não irei abrir as janelas, pois as madeiras incharam com a chuva, mas espero que até vocês, corujas, estejam trabalhando no meu pedido.

Publicado em: Sem categoria às dezembro 29, 2011 em 3:56 am  Deixe um comentário  

Insônias

meu corpo desnudo sob as cobertas revira, abraça todos os travesseiros e os despreza. eu já marquei no despertador a hora de sair do ninho na manhã seguinte, mas as pálpebras não estão pesadas, não querem dormir. penso no dia seguinte, antecipo, remexo no meu dia, penso em eduardo galeano, na américa latina, nos espanhóis, por deus.. por que eles me vêem à cabeça? quero dormir, não estou me esforçando para pensar no mundo, não quero ler, não quero discutir filosofias de boteco, quero dormir.

tento meditação, encho a mente com a cor azul. imagino como seria se fosse terapia aiurvédica, sanguessugas  pelo meu corpo aspirando os pesamentos e me fazendo dormir. os sanguessugas me levam a um filme nonsense, ‘o apanhador de sonhos’ e aí meus pensamentos já estão nos e.t.s.

nonsense, é. me parece que ter lido Alice quando criança, e mais, tê-lo eleito o meu livro da vida toda fez com que todas as minhas escolhas na livraria me levassem a esse tipo de leitura, um inconsciente seletivo. o mais recente morador da minha bibliotequinha me surpreendeu, o autor tem o cacoete que eu tenho também. que os pontos finais sejam seguidos de minúsculas, que às vezes faltem as vírgulas, que o texto possa ser a catarse do autor, sem a censura da gramática.

penso porque faço isso. porque uso creme anti-ruga aos 21 anos. porque essas noites sem dormir me envelhecem. porque vira e mexe estou deixando que certas coisas pairem no ar, feito um céu pesado de chuva que está suspenso por um vidro bem espesso. não quero a compreensão total de tudo. não sei por que minhas aulas ainda não voltaram, até perguntei, mas não quero me inteirar de coisas tão complexas que estão atreladas a poder, fascismo e dinheiro. não sei andar em Belo Horizonte, já fui milhões de vezes e não sei nome de avenida e acho ótimo. penso, essas informações que eu refuto podem me devolver o tempo de vida que as noites de insônia me roubam.

não-sono me rouba, a ignorância me preserva. a metafísica. no livro que comprei, e li 2 capítulos densos antes de tentar dormir (eu sabia que ia ser gasolina para minha insônia mas não pude evitar) empurra-se e abraça-se a metafísica todo tempo. tem uma imagem de maria no quarto do personagem, mas está despida de toda carga de sentido que a antecede. para silva, é só uma boneca. mas se é uma boneca e silva brinca com ela, deixa que a figura navegue livremente no seu nonsense e o tão venerado símbolo da pureza católica vira, adivinhem, metafísica.

tudo que é jogado no liquidificador da minha cabeça se mistura a ingredientes que estão pregados na parede de plástico do mixer e o que sai disso é o que escorre da minha boca para defender meu posicionamento em relação ao que me foi dado. minha semântica, minha semiótica, minha sintaxe. me mostram 2:16 o visor do celular que tem uma garrafona bem grande de jack daniels como foto de fundo. penso em como um scotch com gelinhos tilintando seria bom agora..

penso que preciso colocar essas questões que “sobram” do meu dia todas em ordem alfabética.

agora não.Hypnos está batendo a porta, veio me trazer algumas poucas horas de sono.

Publicado em: Sem categoria às agosto 12, 2011 em 2:42 pm  Deixe um comentário  

L’art

Eu estava olhando as vitrines com as pedras preciosas, safiras, rubis, o tão inconfidente topázio imperial (que deveria se chamar topázio guaraná) e imaginando todas aquelas pedras em curvilíneas fundições de ouro, flutuando nos pescoços de belas moças, presos apenas pelos pés das orelhas, através de um fino palito do mesmo ouro e a tarracha.

Era meu primeiro emprego depois que deixei a casa dos meus amados pais, e o proprietário da galeria (meu então chefe) era o próprio ourives, de modo que era possível ao cliente definir o design da jóia desejada a partir da matéria-prima. E era necessário que a vendedora também pudesse também orientar os desejos dos compradores forasteiros (os moradores locais só compravam alianças), então o ourives deixava vários livros sobre fundição de ouro e prata, gemas extraordinariamente lapidadas, quadros de senhoras dos tempos do império e até antes dele, onde as jóias eram fartas, tracejadas, em composição. Para me inspirar e inspirar os forasteiros.

Todos os dias, às nove da manhã, eu me encontrava com o ourives na pesada porta de madeira que guardava seus tesouros, e colocávamos as pesadas vitrines que ele mesmo havia feito para fora. O costume silencioso das vitrines de jóias da Rua Direita, com a náusea doce de tempos antigos, de tempos onde ouro, prata e diamantes ficam à altura das mãos de qualquer passante e ninguém ousa levá-los. O mesmo ar de tempos outros permite que logo nas primeiras horas do dia, vários sacos de pães deixados pelas padarias estejam amarrados às aldravas das portas, sem que hajam furtos. Coisa linda.

Assim, as vitrines para fora, o ourives me deixava com o angustiante e solitário trabalho de desenfulijar as mais de cem peças de sua criação. Todos os dias eu e senhor Silvo devolvíamos a reluz à prataria do ourives. Não haviam assinado minha carteira, não é possível aos 16 anos, e o acordo era 1,62$ por hora de trabalho mais parte do valor das jóias vendidas. A mulher do ourives, uma chilena bonita e bem-humorada, era quem resolvia as finanças comigo, e me ajudava quando eu fechava negócios caros. Ela também fazia xilogravuras, litogravuras e esculpia, e toda produção da família ia se encontrando na galeria.

Quando deixei a casa dos meus pais para o “mundo”, jamais fantasiei que esse tal “mundo” me veria como a prata da casa (sem trocadilhos) e me recompensasse à altura. Tive que partir de algum lugar. E imaginar que subir aqueles grossísimos degraus de pedra me levavariam para um outro lugar – desvirginar em mim o sabor sutil dos ofícios. As lembranças das ferramentas de entalhe nas mãos do ourives sempre trazem o desenho da fumaça de cheiro do palo santo andino que queimava lento, das mulheres que saiam dos papéis de gravura de sua esposa, as tintas, as canções ao violão.

E como havia de ser, vivi boas histórias. Como esquecer do dia que adentrou a caverna a loura de enormes botas e cigarros de filtros brancos dos filmes marginais dos anos 70? Helena Ignês, em carne e loucura!E me apresentou sua cria com Sganzerla, a bela Djin, na mesma fôrma que descrevi acima, o que era a própria mãe ao ser fonte perene de inspiração ao pai (e a mim) (e a tantos outros) Quem disse que fechamos a galeria esse dia? hehe

Com o tempo fui absorvendo mais de todo aquele cosmo, naturalmente, e me tornando parte dele também, de modo que várias vezes abdiquei de uma refeição mais completa ao meio do dia ia rumo ao boteco famosíssimo logo do outro lado da rua para me fartar de pastéis de queijo. Como é um boteco rockstar, frequentemente muitos amigos estavam por lá sorvendo suas cervejas. Em um desses dias, por maiores que tenham sido meus esforços contra, invadiram a galeria com aparatos de piquenique alcoólico e por ali ficaram, para meu desespero. Dona Chilena chegou e eu era só braços e explicações e desculpas, mas achou meus amigos divertidos e resolveu aderir ao piquenique (!) e terminamos as cervejas ali, ao som das músicas que a faziam sentir saudades de Santiago.

Meus dias de “mocinha daquela loja na rua Direita” se findaram quando me telefonaram da casa onde eu estava morando com mais onze calcinhas dizendo que meu nome estava na lista dos aprovados para o vestibular. A partir dali, o ourives e a chilena me disseram que meus próximos garimpos seriam dentro da área que eu havia escolhido, que havia muito pela frente. Tratei de indicá-los uma moça que apreciaria tanto quanto eu toda a atmosfera da galeria e coloquei as vitrines para dentro pela última vez.

Observar a madeira de cheiro se queimar.. os estalos breves do fogo nos seus sulcos, a fumaça que se contorce leve.. acaba por invalidar o tempo do relógio.  Muito se passou, veja, desde os tempos que me encontrava com o ourives todas as manhãs.  Os sulcos da galeria acabaram deixando um “mundo” cheio de boas percepções talhadas em ouro maciço. Que eu nunca as esqueça.

Publicado em: Sem categoria às maio 25, 2011 em 8:23 pm  Deixe um comentário  

vingt-et-un

 

 

 

 

posso parar aqui no meio dessa estrada de poeira amarelo ouro e esconder as faces com as mãos?

numa risada? num remorso?

me disseram que eu já nasci grande:  meu pai foi me buscar na maternidade, eu caminhei e sorri: onde vamos, Pai?

 

I

“A Ana é azeda, mas muito doce quando é doce”

busco uma doçura, um néctar de afeto, as maçãs do rosto acordarem sempre rubras. não há preço que compare os curta-metragem que perduram nas gavetas da minha memória.

aqueles que aquecem meu coração por terem em algum momento me acalentado em seus braços,

por terem me amado, me desejado paz, sorte. poucos rostos, muitas mãos, dentes abertos em felicidade infantil. o lugar de descanso sem muros onde se pode deitar na relva e ouvir-se nada. nada de dentro do peito calmo e amado.

curta-metragens que ao serem tocados nas lembranças me fazem sentir viva

 

II

“Que demônio mais versátil!”

que saia da alvíssima magnólia um mosquito asqueroso. a maldade de amante que sempre pontuou minha existência.

o prazer inigualável de subverter, de morder, de seduzir. um prazer que também é combustível ( faz sentir viva), meu sorriso aberto em músculos bem treinados para controlar cada contração a fim de arrancar as reações do diante de mim.

a medida exata do tanto que eu quero extrair desse outro. a obsessão se torna a força motriz, ela cega, me empretece. me abastece.

 

XXI

que as vitórias-régias boiem no escuro do lago.

que muitos se subvertam! que muitos se deixem seduzir e cheguem a meu núcleo doce, puro. na minha última casca!

não fazer muitos inimigos e que as mulheres não me invejem (que elas venham tocar!)

subir no parapeito das janelas e manchar os vestidos das moças! que um dia alguém me roube dos meus aposentos também!

é que eu posso ser feliz de quaisquer outras maneiras , você sabe.

feliz aniversário, Ruiva safada!

 

 

Publicado em: Sem categoria às março 14, 2011 em 8:34 pm  Deixe um comentário  

 

 

Repouse
sua cabeça frágil e cansada
A noite está começando
e você chegou ao fim da jornada

Durma agora
então sonhe com os que vieram antes (eles estão chamando
dos portos distantes)

Por que você chora?
O que são essas lágrimas no rosto?

Logo você verá
que todo o medo será desposto (a salvo em meus braços
onde apenas dorme)

Atravessando o mar
uma lua pálida se levanta (Os navios vieram em frota
para levar você de volta)

Tudo se tornará vidro prateado,  luz sobre as águas
as almas passarão ao outro lado

A esperança míngua
no mundo da noite que avança
Através das sombras que caem
saindo do tempo e da lembrança

Não diga que agora chegamos ao fim
os portos brancos estão chamando

Haverá um reencontro entre você e eu
e você estará aqui em meus braços
Onde apenas dorme

O que você vê
no horizonte enorme?

 

 

Publicado em: Sem categoria às fevereiro 14, 2011 em 7:50 pm  Comentários (1)  

1967.

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sono.

saí de casa à 1h da manhã para voltar às 3 e passar poucas horas que duraram feito o respiro de quem está se redimindo por ter feito escolhas erradas. duraram o imensurável tempo de serem sinceros;  de conversar sobre rock N rol, cachorros e passar um pela retina do outro – aconteceu assim, foi preciso assim e cá estamos de novo. (ela entendia)

lá estávamos sobre os pilares dos outros breves momentos tão intensos, apoiados neles e livre deles – sabemos que somos capazes de imprimir na pele tantas outras sensações. as rotinas desordenadas, as escolhas profissionais extremistas – o cálculo preciso e a escrita flutuante, os desamores ( quanto peso, os desamores! ) e a sinceridade.

de passar um pela retina do outro e sobrar desse filtro a vontade enorme e sem maiores porquês de querer as pernas emaranhadas e o riso gratuito e desproposital. de saber do histórico breve das três décadas de vivência dele e respeitar as duas dezenas de peregrinação terrena dela.

de no fundo, (e empurrando isso de volta pra ela mesma entre um gole e outro da cerveja weiss) ela ser extremamente grata a ele por um dia ter querido criar a varanda que fora palco de tantos happy hours! de ter podido deixar na vida dela e tantos outros queridos o sabor inigualável que resulta de abobrinhas e queijo polenghi em cima de uma fina circunferência de massa integral.

ele, sem saber, já estava presente em momentos tatuados na felicidade dela..

ela, sabendo, estava ali pra ele como a escrita está para o cáculo: tinha plenos poderes de descontruir tudo que ele julgava matemático.

Publicado em: Sem categoria às dezembro 15, 2010 em 1:52 pm  Comentários (2)  

Post anterior

Toooooots and the Maytals, 1969, ilha da Jamaica. meu novo vício, música antiga da Jamaica, arranhadas, gravadas com um microfone só, paixão, música nua e crua. não que eu tenha abandonado o rockenroll ou os sonzinhos modernos que ocasionamente me seduzem, mas é que isso é uma viagem ao tempo e ao que a música era.. às vezes dá vontade de sair do mundo 2.0

weather report: apocalipse

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e um pouco de poesia, jornalismo e Minas Gerais! :)

Affonso Ávila e Antônio Gonzaga:

POESIA POENTE… LATENTE

 

O poeta mineiro Affonso Ávila escreveu seu primeiro livro em 1953, ‘O açude’ e em anexo ‘Os Sonetos da Descoberta’ e desde então vem trilhando o caminho de uma literatura marcada pelos versos, pelo apreço ao barroco e pela atenção aos registros. Exercendo jornalismo a partir da década de 50, em uma época onde era possível exercer jornalismo literário no país, Affonso acabou por reunir um vasto material do que produziu para jornais e disse em solenidades no seu livro ‘Catas de Aluvião’.

Na introdução do livro, ele se define como ‘oficial do ofício da escrita’, já marcando com seu tradicional jogo de palavras e repetições (brincando com as camadas de sentido) ele antecipa que ali não terá um trabalho de simples reprodução, como ele mesmo descreve: “Nada de nostálgico nestas Catas de Aluvião, apenas Memórias de Ofício, de quem as vem remasterizando como um escafandrista de suas origens e fontes (…) uma esteira a olho meu de algum salvo ouro de superfície da terra que, queiramos ou não, nos coube insulada neste Brasil continente.

Ainda não desvinculando o poeta do compromisso factual jornalístico, Affonso apresenta seus comentários ante textos-marco, registrados, trabalha-os com cristalinidade e lirismo e oferece ao leitor uma vista panorâmica e privilegiada da história e cultura de Minas, como quando comenta a biografia de Fernão Dias, fundador das primeiras povoações do Estado, ou a formação de Vila Rica, Ouro Preto, no ensaio de Sylvio de Vasconcelos. Fazendo suas preciosas catas, Affonso critica registro por registro, os resume e os torna agradáveis ao leitor. O livro traz ainda os comentários que o poeta fez à grandes obras da literatura brasileira em época de seus lançamentos, como ‘Grande Sertão: Veredas’, Guimarães Rosa, ‘Encontro Marcado’, Fernando Sabino, entre outros.

No Fórum das Letras de 2010, o poeta foi convidado junto à Ferreira Gullar para que prestasse uma homenagem ao bicentenário de Tomás Antônio Gonzaga. O ouvidor homenageado havia espalhado sob pseudônimo, às vésperas da Inconfidência Mineira, em 1789 , poemas satíricos na região dos Inconfidentes. Em versos decassílabos brancos, tom mordaz, agressivo, jocoso, pleno de alusões e máscaras, Gonzaga satirizou ferinamente a então mediocridade administrativa, os desmandos governamentais, e a Independência da colônia. As famosas Cartas Chilenas.

Durante sua mesa no evento, pedi que Affonso dissesse se os escritos clandestinos do poeta arcádico tinham influenciado sua escrita de ‘Catas de Aluvião’. Um pouco debilitado graças a uma internação recente, Affonso respondeu que sim; e que não haveria como ser de outra forma, já que ‘Cartas Chilenas’ também fora marcado pelo jogo de palavras, pelo jocoso sério.  Sem mais, começou então a recitar poemas inéditos e terminou sua homenagem à Antônio Gonzaga recitando a lira 37 de Marília, uma lira que assim como a escrita de Affonso Ávila,  nos traz o “pensar e o ser em Minas.”

Publicado em: Sem categoria às novembro 23, 2010 em 9:44 pm  Deixe um comentário  



who’s seen Jezebel?
she was born to be the woman I would know

(foto: Gui Mohallem)

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existência é outra coisa, o viscoso, onde você toca, é absolutamente em outro lugar.

me apetece sair desse lugar de quando em vez.

não há certeza nenhuma na minha cabeça, a minha memória é fraca.  se eu olho para trás eu tenho a impressão que foram meses em um estado de reação ao que vinha sendo atirado contra mim, brincando de ‘pensa rápido’.

onde eu sinto é um pouco mais embaixo, ou vem dos estômagos ou do coração. eu só sei que ainda não me tornei um ser indiferente e frio quando esses sentimentos me afogam garganta acima e eu marejo.  vou contá-los a vocês.

vi um senhor velhinho de boina, suspensórios e cabelinhos de lã  no meio de uma quermese segurando um balão, sozinho. parei para observar se esperava alguma criança ou alguém que pudesse vir e tomá-lo pela mão. um velhinho lindo, com rugas que mereciam ser ouvidas, mereciam essa apreciação que temos quando o tempo se impõe forte sobre nossa existência ainda pretensiosa demais. ele permaneceu ali, sozinho. ninguém veio. ninguém. as pessoas passavam por ele, barulhentas, terços, maçãs do amor vermelhas feito sangue e ele na escadaria, balão na mão e a espera vazia. aquela solidão me tirou o chão, sacudiu meus estômagos e se externou em lágrimas.

lia esses dias um livro de poemas de uma amiga em um jantar para convidados de peso, Gullar, Affonso Ávila, e outros tantos gigantes magos das palavras. salmão ao molho de alho poró e pimentas rosas, um coque formal em nó no baixo da nuca, o cabernet sauvignon já corando os lábios irremediavelmente de roxo. folheava o livro da minha amiga que partiu ao Rio de Janeiro após formar aqui em Vila Rica. num dos últimos poemas, ela relatava suas experiências pelas estradas de Minas, na hora da partida. uma partida que eu já vivi com amigos, e que tão logo será a minha. ela escreveu : nunca jamais saberão do que falo os que não a viveram; deixo-a agora Ouro Preto, ingrata por tudo que me sugou e jamais o mesmo ser humano, infinitamente grata por ter podido. ter podido te percorrer com a mesma intensidade com que me seduziu. olhei em volta. o jantar seria o último lugar do mundo onde eu poderia irromper em lágrimas. não pude evitar.

.

ainda vive uma garotinha muito doce, que passeia por uma floresta intensa e de um verde que eu não consigo descrever aqui livremente dentro de mim, apesar do caos, das cobranças, de ser sempre apontada como a sofredora, a guerreira, a sobrevivente . afinal de contas, qual foi a guerra que eu entrei que eu não me lembro?


Publicado em: Sem categoria às novembro 16, 2010 em 6:49 pm  Comentários (4)  

Olá! perdão pela ausência!

Estes últimos tempos, além de ter viajado durante as férias, tenho estudado bastante, ou me esforçado bastante. Meu problema em ler e ler efusivamente é que minha memória simplesmente não retém. Simples assim.

Minhas lembranças olfativas me enchem de orgulho. Se fechar neste instante os olhos, por exemplo, consigo entrar dentro do gigantesco armário do quarto dos meus pais e inalar sua madeira envernizada, sendo assim o mesmo cheiro das camisas do meu pai, o cheiro aconchegante do abraço cheio de saudades.

Consigo voltar à infância, batendo os pés minúsculos no assoalho de madeira da fazenda centenária,  guiada pelos primos mais velhos para a hora do banho, na banheira branca e velha, com aquela marca de ferrugem escorrida do registro e o sabonete phebo preto de rosas. Sempre ele, phebo preto de rosas.

Entretanto, as coisas que leio facilmente escorrem pelas minhas orelhas e vão embora.

Esse final de semana me dediquei a um dossiê sobre democracia, problematizado pelas 6 regras de Norberto Bobbio, na tentativa de encontrar explicações plausíveis que me (!) ajudassem a entender minha resistência às formas políticas vigentes e inclinação à anarquia. Em paralelo, também estive lendo a experiência de 4 anos do jornalista investigativo Bill Buford entre os hoolingans ingleses, “Among the thugs”.

Um livro que eu me dei de presente da Livraria da Cultura, no miolo da Av Paulista, um lugar onde eu moraria com certeza. (Volto a falar que eu gosto de ler, gostaria mais ainda se eu me lembrasse. Paralamas cantou e eu me identifiquei de imediato: “do muito que li, pouco sei – nada me resta“)

e coincidentemente, estaria ali naquela semana de férias em São Paulo revendo um amigo que estava vivendo essa situação de massas, violência e futebol, eu não sabia.

O ponto que interessa foi onde minhas leituras convergiram, o das multidões. Tanto no Bobbio quanto no sangue do Buford, é onipresente. Onipresente, multidões, sacou?

O futuro está nas multidões. .. Já eu volto a escrever sobre isso, chicos, fome.

Publicado em: Sem categoria às agosto 30, 2010 em 2:52 pm  Deixe um comentário  

please, remember me..

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espantoso ter que chegar às suas entranhas para poder entendê-lo, espantoso te descobrir pouco, muito pouco

muito menos

espantoso ver você ter tudo em mãos e escolher o caminho de perdê-lo para se ver fraco, covarde, inventando mundos quebradiços e cheios de incertezas que não estão lá

para então voltar e olha!, itsgone

você não sabe de onde vem toda aquela força, toda a estrutura de titânio mas a vê engolindo a dor, buscando horizontes o tempo todo, desejando não mais ouvir suas fraquezas, seus ecos

todo seu resto

.. todo dia eu decido ser forte, todo dia o mundo inteiro me força a ser forte, e eu sorrio. obrigada pelas lembranças, mas devo adverti-los: minhas memórias se vão tão breve quanto vem. comigo é no hoje,

esse troço de “haja hoje pra tanto ontem” é pra gente que não sabe dançar com o mundo.

..

vou indo, meu caos me espera.

Publicado em: Sem categoria às julho 17, 2010 em 1:10 am  Deixe um comentário  
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